quarta-feira, 19 de abril de 2017

Review | Joaquim


A história do que levou Joaquim José da Silva Xavier, um dentista comum de Minas Gerais, a se tornar Tiradentes, transformando-se em um importante herói e mártir nacional que veio a liderar o levante popular conhecido como a Inconfidência Mineira.

Quando se pensa em filmes nacionais que tratam de personagens históricos, é compreensível a preguiça que alguns tem só de ouvir o conceito. Eu vos digo aqui que Joaquim foi a maior surpresa que tive em um cinema em alguns anos. A produção luso brasileira, que foi exibida recentemente no Festival de Berlim, acerta em tratar a época com uma fidelidade nunca antes vista em um filme desse tipo, imagino que houve uma extensiva consultoria com historiadores para a retratação ideal da época e seus costumes. 


O filme não é pra qualquer um, demanda algum conhecimento histórico para que não se perca e logo no início o protagonista aparece em sua forma mais conhecida: com cabelos compridos, barba grande e morto. Em uma narração o protagonista conta rapidamente história de sua morte e seu legado, com isso resolvido, o filme está livre para contar a história de Joaquim, o alferes/protético antes de virar o mito de um movimento que fracassou. 

A ambientação é ideal, o filme pode ser descrito como rústico, há muita ação rural desde o início. Às interações entre as diferentes etnias são verossímeis, Os brancos são geralmente preconceituosos com as outras raças, que vivem harmonicamente entre si. Ensaia-se um romance entre Joaquim e Preta, uma das escravas do alojamento militar. Um destaque que relaciona o filme aos dias atuais é a corrupção já existente no século XVIII e às pessoas que o cometem progredindo na vida. 

Joaquim é uma pessoa honesta, pobre, que durante o filme almeja subir na vida sem burlar às regras. Um sonhador, até. Ao longo do filme ele tem pequenas vitórias, que são alternadas com suas esperanças sendo destruídas cada vez mais ao longo do filme, o que lhe causa revolta, alimentada por um amigo poeta, que lhe mostra livros sobre a independência americana e sobre como há um movimento no Brasil inspirado na mesma. Na maior parte do tempo esses fatos são citados sutilmente, pois há muita história acontecendo e o foco é outro. 

Um dos grandes pontos positivos é o fato de que apesar do filme ser sobre um filho de português e mostrar alferes, administradores, funcionários da coroa portuguesa, colonos e fidalgos, mais de uma vez há espaço no filme para às outras etnias interagirem entre elas, sem interferência da etnia dominante, há negros e índios se integrando musicalmente, há a representação de quilombos, o que torna o filme bem mais completo. 

Há dois problemas no filme. O primeiro é que o filme tem um público alvo necessariamente alto. Infelizmente eu imagino o grande público tendo problemas para acompanhar, não creio que o conhecimento histórico seja tão grande para que uma parte não se perca. O final relativamente abrupto do filme fará pensar, e quando tudo fizer sentido, a experiência com a obra melhora. O segundo é que a câmera estava muito trêmula, até mesmo em tomadas paradas, das paisagens e com os personagens andando ao fundo. 

Em suma, Joaquim é surpreendente, tem boas atuações, uma abordagem diferente da história e é versátil em seu estilo, pois tem momentos divertidos, de ação, drama pessoal e nenhum momento cansativo.


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