sexta-feira, 24 de março de 2017

Música | Elton 70 - Só Enfrenta Quem Aguenta (Parte 2)


O século 21 de Elton John é onde após as experimentações noventistas, decide-se a um retorno às origens. Elton comentou numa entrevista ainda em 1992 que Sting reclamou com ele por suas músicas não terem tanto piano como antes. Assim, gradativamente, desde o The One há um foco maior no piano, mas ainda com sintetizadores, em especial no abaixo da média The Big Picture. A partir daqui é um retorno as origens e homenagens ao passado enquanto se mantém presente.

Songs From The West Coast (2001)

Eu já até escrevi um artigo somente sobre ele meses atrás, quando fez 15 anos de lançamento, o que torna redundante me prolongar tanto. Poderia falar que é o primeiro álbum que escutei dele e logo de cara me conquistou. Poderia falar que é o álbum que acabou com a sequência de 30 anos seguidos dele com músicas no top 40 da Billboard. Poderia falar de como as participações especiais(Stevie Wonder, Rufus Wainwright e Billy Preston) só melhoram as músicas.

É um dos melhores álbuns do século. Coeso e altamente agradável de ouvir em todas as suas nuances. Os bônus e b-sides são irrelevantes dessa vez. O grande destaque aqui é a qualidade dos video clips. Original Sin, com uma jovem Mandy Moore(que depois casou com Ryan Adams, que por sua vez inspirou Elton John a fazer esse álbum após lançar Heartbreaker) e Elizabeth Taylor. This Train Don’t Stop There Anymore, que encerra o álbum, tem Justin Timberlake no papel de um jovem Elton. E I Want Love, que é provavelmente a música mais recente dele a tocar em rádios brasileiras, teve um clipe com Robert Downey Jr. logo após sua saída da reabilitação andando por uma casa vazia.

É uma obra prima que merece ser ouvida por completo, mas posso recomendar The Emperor’s New Clothes, The Wasteland e Ballad of The Boy in The Red Shoes(essa última uma canção sobre AIDS melhor do que The Last Song).

Nota: 9,5(anteriormente 9,5)


Peachtree Road (2004)

O retorno às origens continua. Aqui não há músicas necessariamente radiofônicas, a preocupação é em fazer músicas boas, ter um álbum consistente. É adulto contemporâneo, mas não necessariamente o que toca em rádios. É agradável, divertido e suave. Reflexivo em certos momentos, como na faixa inicial, Weight of the World.

A primeira metade é mais equilibrada, They Call Her The Cat e Answer in The Sky evitam que o álbum seja apenas de músicas lentas/românticas. Mas mesmo que fosse, nesse caso seria o The Big Picture que deu certo. A inspiração pra esse disco é Atlanta, onde Elton vive nos Estados Unidos quando não está em turnê, assim, boa parte das músicas tem um coro que se assemelha ao gospel, mais ou menos como teve em If The River Can Bend, novamente no The Big Picture. Todas as músicas são boas, mas falta apenas a variedade existente no trabalho anterior, é um disco que não perdeu o frescor e a vontade de se redescobrir. Ou então se acomodar em um bom trabalho e ser indulgente no seguinte, esse marca a continuação de uma boa sequência de álbuns. É tão bom quanto Made in England, ainda que possa se alegar que Peachtree é um pouco mais consistente.

Os B-sides aqui são músicas do músical da Broadway Billy Elliott, o qual ele foi o compositor. Merry Christmas Maggie Thatcher é uma grande música retratando uma época, curioso a música não ser mais lembrada na época que se comemorava a morte da Dama de Ferro, mesmo com o fato de metade da Inglaterra em algum momento ter feito uma música contra ela.

Nota: 8,5


The Captain and The Kid (2006)

Aqui, seguindo na sua bem sucedida turnê pelo passado, Elton decide fazer uma continuação para um de seus álbuns mais emblemáticos: Captain Fantastic and The Brown Dirt Cowboy(1975). Vale lembrar que em 1988, no Reg Strikes Back, houve a continuação de uma música do Honky Chateau, de 1971, Mona Lisas and Mad Hatters. No caso desse álbum o que temos são registros em forma de música dos acontecimentos na vida de Elton e Bernie Taupin. Enfim, o primeiro álbum temático em 17 anos.

E a palavra chave dos álbuns dele no século 21 continua a ser equilíbrio. Todas as músicas são notáveis. Um álbum cheio de lembranças, uma carta de amor a Nova York, homenagem a amigos mortos. E músicas que apesar de grandiosas como as de velhos tempos e fazerem jus ao álbum ao qual faz referência, não são pretensiosas ou se impoem tentando atingir o topo das paradas. Tanto que a gravadora não lançou single, pois alegaram que o álbum deveria ser apreciado por completo, como uma obra de arte. É mais coeso, equilibrado e superior a Peachtree Road, ainda que não tenha uma música com a força de Weight of the World.

E obviamente é bom como continuação, mas nunca será melhor que o material original, que tem o melhor encerramento da história da música moderna, com a sequência We All Fall In Love Sometimes e Curtains. Não recomendei nenhuma desse nominalmente, então vale ouvir Tinderbox e a faixa título, que fecha o ciclo iniciado pelo Captain Fantastic original.

As faixas bônus são oficialmente disponíveis quando se coloca o CD em um computador, então há um download automático. Across The River Thames revisita os velhos tempos e afirma que tanto ele quanto Taupin estão vivos e na ativa, ainda que os chamem de dinossauros. Mas a esse ponto eles já atravessaram seu próprio Rubicão e podem ignorar determinados comentários.

Nota: 9,0(anteriormente 8,5)


The Union(2010)

Eu sei a história desse álbum de trás pra frente, mas sendo essa a primeira vez que o escuto desde a morte de Leon Russell(1942 - 2016), resolvi ir no encarte, pois nele Elton passa umas cinco páginas contando como esse disco foi feito, uma história fantástica e um bom lembrete de que ele escreve bem.

Resumidamente: em 2008 ele participou de um programa que ele produzia com seu marido chamado Spectacle, onde Elvis Costello entrevista outros cantores e depois cantam juntos. Nesse programa, Costello perguntou quais cantores/compositores ele achava que estavam esquecidos. Elton citou Laura Nyro, David Ackles e Leon Russell. os dois primeiros já estavam falecidos na época do programa. Como seu marido não conhecia a música deles, comprou os CDs e botou no iPod. Meses depois Elton começou a chorar quando ouviu uma música de Russell, quando perguntado o porque, ele respondeu que era injusto um artista dessa grandeza estar sumido e esquecido.

Leon Russell é um pianista/cantor que é um ídolo de Elton John, uma referência no começo da carreira de Elton, fizeram shows juntos, amizade e admiração foram formadas, mas eles acabaram perdendo contato por mais de 30 anos. Tudo isso motivou que eles voltassem a se falar. Depois dessa conversa, Elton procura o lendário produtor T Bone Burnett, conta toda a história e pergunta se é possível fazer um álbum com os dois. Burnett aceita o desafio.

Com o tempo e a notícia de que o álbum está em produção, velhos amigos aparecem no estúdio para visitar Russell, matar as saudades e colaborar no álbum, como Neil Young, Don Was e Brian Wilson. Aliás, uma novidade aqui é o fato de que a banda é completamente diferente da banda habitual que Elton trabalha. O que torna esse álbum bastante diferente do som habitual, mesmo do som recente dos últimos 3 álbuns.

Todos estão inspirados e o álbum é uma obra prima. Não é que haja uma zona de conforto nos álbuns anteriores, mas trabalhar com um produtor diferente, banda completamente diferente da habitual, em um projeto impulsivo, trouxe o pouco de ar fresco que outros projetos tiveram em falta. É o único que se compara a Songs From The West Coast, talvez até seja melhor dependendo do dia, mesmo que se ignore o contexto, pois esse álbum é bom o bastante pra que não dependa do contexto pra funcionar, é boa música, o que transcende certas barreiras.

Há equilíbrio, mas não na questão de metade das canções é triste, metade é animada, tal qual numa pintura, a grande figura compensa detalhes menores. If It Wasn’t For Bad, Hey Ahab e I Should Have Sent Roses. Não há como errar nesse álbum.

Nota: 9,5(anteriormente 9,0)


Good Morning To The Night(2011)

Uma colcha de retalhos dance. Elton John deixou uma dupla chamada Pnau pegar pedaços de sua música, junta-los pra fazer algo novo. Embora não seja ruim, conceitualmente é igual a aquelas cervejas sabor bacon que fazem nos Estados Unidos: a ideia é bonita, funciona pra quem gosta, mas no fundo acaba sendo uma pequena heresia. O álbum ter menos de 30 minutos não ajuda muito. Mas a canção título acaba compensando um pouco a experiência.

Nota: 6,0(anteriormente 7,5)



The Diving Board (2013)


No próximo passo em direção ao passado, Burnett deu a ideia de fazer um álbum com uma banda na mesma estrutura da primeira banda de Elton(piano, baixo e bateria). Elton gostou da ideia e tal qual ele fez com uns 10 projetos diferentes, alegou que aquele era o seu favorito. O mais adulto e o mais voltado pro piano. E repetindo os músicos que ajudaram a tornar o The Union um sucesso. Tudo pra certo? Na prática não foi bem isso que aconteceu pra mim, a crítica quase toda amou o disco.

Eu fiquei pessoalmente ofendido(ou decepcionado) com o resultado final nas primeiras vezes que ouvi, principalmente pela quantidade de vezes que foi adiado até o lançamento(quatro). Pra mim é basicamente um The Big Picture melhor produzido e com músicas um pouco melhores, mas ainda assim melancólico numa forma geral. Eu queria gostar mais, há bons momentos, mas enquanto há boas letras e a produção é boa, ainda assim é talvez o pior desse século, muito porque o nível dos álbuns anteriores foi muito alto.

É bom ressaltar que o problema aqui é o excesso de melancolia, o álbum não é ruim, é mais uma questão de preferência. As melhores aqui são My Quicksand, Home Again e Mexican Vacation. Há três interlúdios, aqui chamados de Dreams, são outro ponto positivo, dividem o disco em atos, aparentemente.

Nota: 7,0(anteriormente 7,0)

Wonderful Crazy Night (2016)

Outra vez que as expectativas estiveram altas. A capa denunciava que o álbum seria animado, a música divulgada era promissora. Pela primeira vez eu comprei o álbum no lançamento. Normalmente eu reclamo de melancolia, o que geralmente significa que Taupin está deprimido de novo e está refletindo isso nas letras. Dessa vez não tenho o que reclamar das letras, já as melodias não foram tão memoráveis, digamos. Foram bem feitas, não dá pra reclamar da produção. A Elton John Band está de volta aos álbuns pela primeira vez desde The Captain and The Kid, o lendário Ray Cooper está de volta pela primeira vez desde Made in England(note a bateria dupla). Como diz uma certa torcida, estavam deixando a gente sonhar.

A realidade não foi ruim, mas acabou sendo abaixo das expectativas, as quais admito que eram muito altas. O problema é que não há muita coisa que te atraia a escutar de novo, até The Diving Board é um pouco melhor nisso. Não é medíocre, mas é… neutro. Há uma diferença entre ser equilibrado e ser nivelado por baixo. Entretanto, eu posso melhorar minha opinião depois de ouvi-lo mais vezes.

A canção título começa muito bem as coisas, no entanto. In The Name Of You também é notável. Looking Up é a canção que foi usada como divulgação e me empolgou antes do lançamento. Se o próximo álbum, que sai ano que vem, tiver o capricho de The Diving Board e a filosofia de animação desse, tudo ficará bem, resta aguardar.


Nota: 7,0


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