sexta-feira, 17 de março de 2017

Música | Elton 70 - Só Enfrenta Quem Aguenta


ou, Elton John 70 anos, os anos pós cirurgia e sem drogas, parte 1.

Não sei se já especifiquei isso nesse blog, mas sou um grande fã de Elton John. Tanto que um dos planos para esse ano no blog é refazer um post trabalhoso que fiz em um blog fracassado um ano atrás, onde analisei sua discografia de 1992 pra cá. Por que 1992? É o ano onde ele lança um álbum novo após 3 anos de hiato, onde ele foi pra reabilitação, se livrou do vício das drogas e passou a se cuidar mais. O fato de finalmente ter todos os álbuns em CD me motivou, assim tirei tempo para reouvir tudo e analisar.

Tudo isso foi antes de descobrir o método Christgau para avaliação, o Guia do Consumidor, uma coluna popular desse blog. Com isso, estarei aqui reavaliando os álbuns e incluirei nessa relação dois álbuns de 1988 e 1989, Reg Strikes Back e Sleeping With The Past respectivamente. O motivo para isso é que eles foram logo após a cirurgia feita em 1986/1987 para retirar nódulos encontrados nas cordas vocais, algo que poderia ter encerrado sua carreira como cantor (algo que aconteceu com Julie Andrews, por exemplo). Outro ponto importante é ressaltar que trilhas sonoras como as de O Rei Leão e coletâneas serão ignoradas, o objetivo é seguir a ordem canônica. B-sides serão considerados aqui, pois Elton é um artista rico em lados B, que em alguns casos até são melhores que todas as músicas de certos álbuns.

E por que essa época específica? Porque, tal qual qualquer crítico poderia te dizer e fazer, eu poderia pegar o período entre 1969 e 1976, o famoso grande auge criativo, onde tudo dava certo e gastar dois parágrafos falando que o resto é uma porcaria, só teve hits, etc. Isso é fácil e até mesmo desonesto. Aqui jogamos com a realidade dos fatos.


Reg Strikes Back (1988)

O álbum com as roupas de show usadas nos últimos 15 anos, as quais ele aposentou no último concerto antes da cirurgia. As roupas foram leiloadas. É um bom álbum para se acostumar com as mudanças na voz, que ficou mais grave. É um progresso em comparação a Leather Jackets, onde tudo foi estranho e quase tudo que foi tentado deu errado. Tem I Don’t Wanna Go On With You Like That como grande hit, Word in Spanish em um lugar mais alto do que mereceria nos charts (19º) e a continuação para uma música feita em 1971, Mona Lisas and Mad Hatters como pontos altos, ainda que a crítica reclame que fazer a continuação de uma música clássica 17 anos depois signifique falta de criatividade. A primeira metade é boa e a segunda é apenas razoável, com o único destaque sendo Goodbye Marlon Brando. É um álbum pouco acima do mediano para essa década. No Spotify há alguns b-sides, que melhoram a experiência, mas sempre procure no Youtube. I Don’t Wanna Go On foi executada em shows até 2000. Mona Lisas and Mad Hatters(Part 2) foi executada junto com sua primeira parte até 1993.

Nota: 6,5

Sleeping With The Past (1989)

É um dos melhores álbuns dele na década e na discografia, ainda que alguns fãs discordem da segunda parte dessa afirmação. O conceito dese álbum é fazer um tributo a artistas do R&B que os inspiraram quando jovens. A primeira metade do álbum é fortíssima, ainda que dela somente Healing Hands tenha virado um hit. Club At The End Of the Street é a canção preferida para alguns fãs e foi lembrada para um DVD ao vivo relativamente recente. Mas a grande música é Sacrifice. Só do nome ser citado, alguns de vocês já estão com a música na cabeça. Grudenta e romântica na medida certa, a música que resume aqueles programas de rádio estilo Good Times, o maior hit de 1989/1990.

A segunda metade é menos vistosa, mas além de Sacrifice dar consistência, há Blue Avenue encerrando bem o disco. Nos B-sides, Dancing In The End Zone e Love Is a Cannibal são fantásticas e só não entraram no álbum por não encaixarem no tema. Infelizmente os CDs com essas músicas são as remasterizações de 1998, que são caras. Felizmente o Spotify tem os álbuns remasterizados. Curiosamente nenhuma música desse álbum é tocada hoje em dia. Healing Hands foi até 1993 e Sacrifice até 2010.

Nota: 8,5

The One (1992)

O primeiro álbum sem drogas desde 1974. O que explica o tom esperançoso e reflexivo, que resulta em músicas menos animadas que nos álbuns anteriores. É consistente, tem algumas das melhores músicas da década, mas não é melhor que Sleeping With The Past. Quanto aos pontos altos, o álbum começa bem tendo Simple Life e The One (os hits) em sequência e Runaway Train, um dueto com Eric Clapton, pouco depois. As quatro últimas músicas são pouco lembradas, mas são ótimas e vale conferir. Emily é uma música animada falando sobre uma velha morrendo. On Dark Street é uma música animada (e esperançosa) falando sobre pessoas morando na rua. Understanding Woman tem David Gilmour na guitarra e é reaproveitada das músicas inéditas do To Be Continued, de 1990. E por fim The Last Song, que trata de AIDS, os lucros eram revertidos pra fundações que combatem a doença e virou hit. Uma música muito bonita e triste, que foi feita logo após a morte de Freddie Mercury.

O destaque nos b-sides é a simpática e despretensiosa Fat Boys and Ugly Girls. Desse álbum Simple Life foi tocada até 1999, The One foi tocada com banda até 2000 e depois esporadicamente em shows solo.

Nota: 8,0 (anteriormente: 7,5)

Duets (1993)

Oficialmente era um projeto de Natal, mas aí Frank Sinatra lançou o seu Duets, que tornou esse projeto maior e viável, assim, Elton juntou o povo e gravou em 3 meses pra conseguir lançar antes do Natal. É a prova que nem sempre juntando grandes nomes algo bom virá. É uma colcha de retalhos, com 10 produtores diferentes e uma diversidade espantosa, nunca mais se verá um álbum com Leonard Cohen e Ru Paul (não ao mesmo tempo).

Muita coisa é genérica, mas não necessariamente ruim. O que funcionou quase sempre virou hit na Inglaterra. True Love foi #2 e só não é cantada ao vivo porque Kiki Dee só aparece a cada 15 anos, a música foi parar no Love Songs de 1996. Outra que foi parar na coletânea de 1996 e foi hit, mas não pelo Duets é Don’t Let The Sun Go Down On Me, o dueto com George Michael que foi #1 mundial em 1991 e é um ponto alto do Duets.

Aí temos Ru Paul, antes da fama moderna de reality shows. Regravou uma versão dance de Don’t Go Breaking My Heart com produção do decano dance, Giorgio Moroder. Foi #7 na Inglaterra e teve um clip inusitado. Os grandes destaques do álbum excluindo os hits são When I Think About Love (I Think About You), cantada com a dupla P.M. Dawn, que foi regravada de forma surpreendentemente boa por Naomi Campbell um anos depois. O outro destaque é Duets for One, escrita com Chris Difford, da banda Squeeze (a qual eu falarei em outra ocasião, pois fiquei viciado). É uma música daquela linhagem que sempre toca em rádios como Antena 1, JB FM, rádios de tema adulto contemporâneo. Músicas como You Gotta Love Someone ou Easier to Walk Away,  que apesar de fazer sucesso aqui, não são prestigiadas em shows.

Nota: 6,5 (anteriormente: 6,0)


Made in England (1995)

Coeso, equilibrado e com variações. Só não ganha o título de melhor álbum desde 1976 porque há um melhor 6 anos depois e um tão bom quanto 12 anos antes, Too Low For Zero. Um álbum que faz uma ótima junção de músicas animadas com músicas românticas onde as letras são o ponto alto. Believe e Blessed são grandes músicas, que ainda são tocadas eventualmente, além de figurarem no Love Songs de 1996. Abrem e fecham com maestria o disco. Made In England é o rock puro e simples que faltou pra The One ser acima da média, a parte boa é que nem é a melhor do álbum nesse aspecto. Pain, que entrou no repertório da turnê e Lies são fantásticas, mesmo sendo o que chamam de filler. E há Please, pouco lembrada, mas agradável.

É um álbum agradável e no geral feliz. E rendeu o melhor show de Elton John no Brasil, no fim de 1995. Melhora a cada vez que se analisa melhor. Os b-sides são irrelevantes, mas há muita música que não foi aproveitada que também é boa. Os destaques são Red e Hell, que ironicamente só existe em versão demo.

Nota: 8,5 (anteriormente 7,5)

The Big Picture (1997)

É um álbum. Tem letras. Tem músicas. Só não tem muita alma. Altamente triste, desesperançoso, indo contra todos feitos antes disso. Blue Moves(1976), o famigerado último álbum bom segundo a crítica, tem esse problema de melancolia excessiva, mas ela é balanceada com a variedade de ritmos e algumas músicas mais felizes (encerrar o álbum com um soul de 7 minutos ajuda bastante).

Em The Big Picture as melhores músicas foram os b-sides. Big Man in a Little Suit é uma dos melhores rocks já feitos por Elton. Se estivesse no Made In England, faria com que esse fosse tão bom quanto Songs From The West Coast. I Know Why I’m In Love é simpática e No Valentines é honesta. Tem alma e não são depressivas. O fato de eu ter detestado esse álbum em condições normais e gostado quando estive deprimido explica muito. Os destaques do álbum em si são Recover Your Soul, January, Wicked Dreams e Something About The Way You Look Tonight, que são boas, mas não compensam. Mas explicam como esse álbum é fácil de se encontrar em lojas e num preço baixo, tal qual o Duets.

Nota: 5,5 (anteriormente 5,0. Quando fui conferir a nota, vi que escrevi isso na época: “Se Robert Christgau avaliasse esse disco, encheria Elton de porrada e eu não poderia reclamar.”)

Na parte 2, trataremos do século 21, supostamente mais estável.


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